A fruteira do Serjão

O Serjão… É o Serjão! Tentando ser um “moço humano, antes que muçulmano”, um cara que tem tentado, mesmo, tem um tempão, deliciosamente aos berros, sem camisa, na frente de todo mundo. Mas eu não vou descrever o Serjão sob o risco de rasgar seda demais e parecer muito sincera… É um sujeito sensível ele! E pode me mandar à puta que o pariu…

Mas ele sabe um monte de coisas! Umas que ele leu, outras escreveu, outras inventou ou viveu ou se lembra delas, sem tê-las vivido, coisas que não lhe servem pra grande coisa mas pra mim… Ah, eu adoro! Eu me delicio! Eu vou dando corda, provoco a fúria dele pra me deliciar naquele humor horrível! Que delicia, que livre o mau humor dele! Chega a ser suspeito! Só mesmo um cara muito alto astral poderia carregar com tamanha propriedade, tudo aquilo de certeza que estamos fodidos.

Eu não falo dos meus problemas com o Serjão! Eu levo comigo o que tiver comigo, a diabrada toda, sem filtro e ele é tão generoso… não… não é essa a palavra. É uma palavra que não tem, um adjetivo pras raríssimas pessoas que não dizem “Você tem que ser feliz!” e essa coisa sem nome me eleva a um estado de felicidade que eu só experimento assim, por pura rebeldia. Daí, a minha solidão vai queimando como um insenso, um insenso lá na outra sala e acaba.

Dia desses eu pensei em mudar de espécie! Essa me pareceu uma ideia brilhante quando parecia autêntica, minha. Mas não é! Eu contei pro Serjão, enquanto ele procurava a cerveja na geladeira com a luz apagada: Eu tive uma ideia que já passou! Mas eu tive! Eu pensei em virar uma planta! Eu estava doente e não conseguia comer e tomei líquido! Tudo líquido! – “Onde tá essa porra?” diz o Serjão, saido da geladeira pra acender a luz – Tudo que me mandaram tomar: água de coco, sucos, água… E, então, todas as pessoas e principalmente as que querem que eu seja feliz começaram a dizer que eu tinha que comer, tinha que comer! Pra ficar viva, saudável e, principalmente, feliz! Daí, a médica – recém eleita “minha médica”- me disse “Não! Não precisa comer! Não tem fome, não come!” e aquilo me deu um estalo! ‘não precisa comer’… ‘não come’. Não como! Não como nunca mais! Só líquido! Daí, eu vou virar uma planta! Migro de espécie! Espécie de merda a nossa – “Puta que pariu!”, disse o Serjão, sobre o negócio que tropeçou na geladeira – Daí, habibi, ninguém, nunca mais, vai me pedir um caralho! Nem me encher o saco, nem querer que eu me foda! E ele, vindo com a cerveja na mão, aquele andar arrastado dele, sem me olhar com cara nenhuma, diz “Mas, aí você está partindo da premissa de que as pessoas notariam! Isso é querer demais!” e eu comi tudo que ele botou na mesa: um leguminho árabe que não me lembro o nome, queijo, rabanetes e pão!

Ouvimos música clássica, ele tocou piano enquanto eu fazia xixi, cagamos de rir de coisas bem bestas, esculhambamos pessoas, certezas, mentiras boas, verdades de merda, vimos o jogo, o Corinthians ganhou (O jogo e o Campeonato, por que não dizê-lo?), o Serjão gritou “Vai, Curintia!” e eu vim embora, toda despedaçada, tudo de verdade, tudo pra fora… Tudo que eu tenho que enfiar no meio de algum Atlas aqui de casa, pra poder ir ao banco, ao médico, ao trabalho, à merda…

Eu fiquei doente, muito doente e desejei, quase que de verdade, abandonar a minha própria espécie devido a um estado, que parecia irreversível, de exaustão com pessoas cu. Não tenho o adjetivo adequado também e não vou descrever por pura preguiça. Pessoas cu me dão vontade de virar uma Samambaia qualquer e, dessa vez, cheguei bem perto. Mas, na cozinha do Serjão, enquanto ele explicava uma coisa qualquer, que foi engolida por ele, com aquele vozeirão de Deus Hollywoodiano, me convencendo, sem querer, de sei lá o que que uma hora eu vou lembrar e vai ser foda, eu olhei pra fruteira do Serjão e elas estavam todas lá! As pessoas cu, em forma de bananinhas inofensivas… Estavam todas lá, passivas, bonitinhas, de ladinho, as bananinhas! Chego até a gostar um pouquinho delas!

O benefício da Vaia

Aula 1 de “O que é ser Artista” por Sérgio Ricardo e Caetano Veloso:

O ano era 1967 e o Contexto Político, aquele que todo mundo (exceto os oligofrênicos de extrema direita) sabe: Regime Militar, porradaria, todo mundo “mãopacabeça”, nenhuma Instituição ou forma de poder poderia ser contestada e, enquanto isso, na TV Record, rolava a terceira edição do “Festival da Canção”. Lá, fechados no Teatro, sob olhares atentos de milhares de telespectadores (a transmissão era feita ao vivo, para todo o Brasil) o Festival era uma espécie de “Oásis”, onde, sim, a contestação era permitida em forma de vaia, de berro, de música e a Censura (sempre burra, ou teria escolhido outro trabalho pra fazer…) simplesmente, não percebia nada…

Neste contexto, ainda, aconteceu uma coisa de uma singeleza ímpar: Uma passeata “contra a guitarra elétrica”. Bom… o que poderiam fazer os Militares contra isso? Nada… Mas era uma galera na rua que se imaginava “lutando contra o Imperialismo Ianque” representado, naquele momento, pela entrada da guitarra elétrica na música brasileira… Lá estavam, dos que me lembro melhor, a Elis Regina e o Gilberto Gil que, 50 anos depois diz que esteve lá, somente, porque a Elis lhe havia pedido. 400 pessoas na rua, nenhuma prisão…

O Sérgio Ricardo havia passado para a última fase a contra-gosto do público, sob vaias ensurdecedoras, mas passou. Era uma música meio “cabeluda”, intensa, agressiva, que começava com um berro (sim! um berro). “Beto bom de bola”, depois, apelidada de “Beto bom de vaia”.

No momento de entrar no Palco, o apresentador do programa tentou dar uma “amaciada” no público, quase que pedindo a este que desse ao Sérgio Ricardo a “chance de ser ouvido”. Entra o Sérgio Ricardo, com sua banda, apavorados, olhos arregalados para o púbico que vaiava sem cessar, a plenos pulmões, quase que impossibilitando os que não vaiavam, de ouvir a tal da canção… O Sérgio Ricardo tentou negociar “Um minuto… por favor… aqui só tem pessoas inteligentes…” Vaia, vaia, vaia… tentou apelar “Não canto de baixo de vaia!” (disse ao Maestro à sua esquerda). Vaia, vaia, vaia… Ele começou a cantar. Deu seu berro “Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah” somando seu berro ao “Uuuuuuuuuuuuuuuuuuu” da platéia… No meio da música, ali mesmo, ao microfone, disse ao maestro “Não consigo nem ouvir o tom!” e, segundos depois, levantou-se. Bradou “Vocês ganharam! Vocês ganharam!” arrebentou seu violão e o atirou à platéia, sendo, assim, eliminado do Festival e, claro, entrando pra História da Música Popular Brasileira.

Minutos depois, lá vem Caetano, com guitarras elétricas, baixo, teclado, muito volume e distorção, trazendo sua “Alegria Alegria” com um arranjo totalmente “Imperialista” (favor considerar as aspas) e, dá-lhe vaia “Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu….”. Caetano olhava para o público, sorria, uns poucos aplaudiam e ele não disse nada, só olhou e sorriu. Olhou com sinceridade, sorriu, sincero, também e começou a cantar… “Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento…” e a letra citava até a Coca Cola, até hoje, considerada um “demônio Imperialista” por outro grupo de oligofrênicos, nesse caso, de esquerda e lentamente, foi acontecendo um milagre: As vaias foram diminuindo, os aplausos, crescendo e no final da canção “Eu vou! Por que não? Por que não? Por que não?” E as pessoas estavam de pé, aplaudindo e cantando junto dele, aos berros “Por que não?”.

O Caetano tinha 23 anos e, mesmo assim, tão menino, pode olhar pra frente com aquele olhar dele, de verdade, aquele sorriso largo e dizer a si mesmo “Olha que coisa mais linda, isso aqui! Aqui se pode vaiar… a mim se pode vaiar!” e, imagino eu, “conhecendo o Caetano como conhecemos” que também pode ter havido da parte dele um sentimento de “Eles não entenderam nada… ainda… mas EU entendi…”.

O “Chilique” é uma coisa que a gente faz, exclusivamente, quando “acredita na vaia”, quando traz pro palco uma coisa que é “pessoal demais”, que é pra nós mesmos… Porque a arte feita pro outro, inclusive “pro outro vaiar” é uma forma de arte na qual a vaia, simplesmente, não penetra, pelo menos, não a ponto de “não se ouvir a própria voz”.

Não sei que fim levou o Sérgio Ricardo… O Caetano, a gente sabe! O Caetano taí! Com seu sorriso, seu olhar, sua verdade, com “Alegria, Alegria” e guitarra elétrica. Sendo vaiado (e muito!) por muitos, mas tá aí, há mais de 50 anos. Por que não?

E vou citar, de novo, meu mantra favorito: “Se enxergo longe é porque me apoio nos ombros de gigantes” (I. Newton).

Obrigada, Caetano Veloso! Muito obrigada!

 

Nosso Mercado e Nossa auto-estima

Esse é daqueles textos que escrevo sem a certeza de que aquele que lê, de fato, compreende o que quero dizer… Não é uma questão de subestimar a capacidade de interpretação das pessoas, no mínimo, não somente isso, mas é um texto que toca numa ferida muito profunda da nossa Cultura, daquelas que muita gente se recusa a ver… Aqueles que “não admitem que há racismo/machismo/nazismo no Brasil” não irão, de jeito nenhum, “tolerar esse texto”. Mas… a Situação pede e talvez seja eu, mesmo, a pessoa a tocar em mais essa ferida que é a baixíssima auto-estima do Brasileiro, de um modo geral, e a necessidade de consumir qualquer coisa, contanto que seja “Maide in Seilaonde”, contanto que não seja nossa…

Vou começar pela “Escova Progressiva” que foi desenvolvida aqui no Brasil, mais exatamente, no Rio de Janeiro, onde cabeleireiros do Mundo inteiro se ocuparam em visitar para aprender a técnica que é vendida mundo afora como “Alisamento brasileiro” e, aqui no Brasil, os nomes “Escova Francesa”, “Escova Marroquina” foram o que fizeram o “negócio engrenar”.

Acabo de voltar do Egito e, como em todas as vezes que visitei o Egito, fui ver a Soraia (Zayed, brasileira, brasileiríssima, trabalhando no Cairo há 15 anos) e, mais uma vez, constatei que é (sem nenhuma possibilidade de comparação!) o quadril mais “ágil” da história da Dança do Ventre. Pode “não gostar”? Acho que sim… Pode não gostar de chocolate, também, agora, dizer “que não é bom”? Acho que não… O que faz da Arte, Arte de fato, entre outras coisas é o Artista ter-se inventado e reinventado, assinado claramente seu trabalho e influenciado o meio por onde circula! Tem “Mestres Egípcios” que sequer conhecem a Soraia (ou admitem conhecer, sei lá) que ensinam “Coisas de Soraia” em suas aulas e é possível ver essas “coisas de Soraia” em corpos que jamais tiveram contato com ela, pessoalmente, porque ela faz parte da História da Dança do Ventre Moderna, parte das transformações dessa história e influenciou, ainda sem querer, ainda sem “ser amada por todos” a Dança do Ventre, como um todo. Tenho a nítida impressão de ser a única pessoa no Brasil (sim, fora do Brasil, muita gente sabe disso!) a ter constatado isso…

No final do Ramadan, vem “O Feriadão do Mundo Árabe” que é “Eid”. Essa é uma época de celebração, de “recompensa” pelo mês de Jejum (entre outras “limitações” impostas aos Muçulmanos) e é hora de “deitar o cabelo”. O Egito é e sempre foi o “lugar ideal de deitar o cabelo”! Tem festa, cabarés, Dança do Ventre, arguille, o Egito não dorme, o Egito é “Laico” (entre aspas, mas é!) o que significa que até mesmo uma “pecaminosa cervejinha” pode ser encontrada em toda parte! Assim, a Arábia Saudita “desce toda pro Cairo” pra aproveitar. Esse ano, vi grupos de mulheres sauditas (sem a “proteção de seus homens” é, o Mundo mudou!) em cabarés… Com essa presença maciça deles, o cabaré fica “Todo Khalige” (toca músicas do Khalige, pessoas dançam danças do Khalige) e vi mulheres (algumas bem cobertas para o ambiente, outras, penduraram seus “hijabs” no Toillet e saem de shorts curtos, minissaias) livres, celebrando sua vida, uma coisa muito linda de se ver. Inspirada nessa alegria, nessa liberdade “de curto prazo”, me reapaixonei pelo Khalige e voltei para o Brasil muito a fim de estudar, preparando um número e figurino para meu próximo trabalho aqui, com aquele “delicioso friozinho na barriga” do desafio, da coisa nova, do desejo de ser aprovada (sim, claro que tenho, como todo mundo, especialmente, apresentando coisas fora da minha “região de conforto”). Fui, Youtube adentro, em busca de inspirações…

Vi muita “Baixaria” (mulheres se esfregando no chão, umas nas outras, algumas coisas de gosto bem duvidoso, no intuito óbvio da “sedução escrachada”, coisas dispensáveis para os olhos de uma mulher, de um modo geral), continuei minha busca… Poucas mulheres árabes, especialmente, “nos anos 2000” e, com a palavra chave “Khalije” ou “Khalige” cheguei na Warda Maravilha (brasileira, brasileiríssima) e posso dizer aqui, sem medo de errar: A melhor bailarina de Khalige de todas… Não só a melhor como, na verdade a única que, pros meus olhos, “entendeu esse negócio que vi no Egito”, essa “liberdade volátil”, essa “celebração sem pano preto cobrindo o rosto”, das mulheres sauditas… É bonito, é forte e delicado, tem uma sensualidade “cuidadosa”, uma coisa bem especial e, principalmente, uma energia totalmente diferente da Dança Oriental ou Dança do Ventre Clássica… Outra coisa, de outro povo… Um povo com o qual a Warda tem convivido por (acho que) uns 20 anos. Uma coisa que só ela “pegou”.

Minha apresentação no Egito é, sempre, uma certa “dor de cabeça” pra mim… Tenho que estar no meu melhor (melhoríssimo!) modo, apresentar alguma coisa que seja “eu, com certeza”, na frente dos maiores mestres de Dança do Ventre do Mundo (já dancei pro Mahmoud Reda, Nagwa Fouad, Mona Saiid, Raqia Hassan, Farida Fahmi, Dina, Randa, Tito, Yusri Sharif, somente pra citar alguns) é uma coisa que faço com o coração na mão (e, porque não dizê-lo, com um figurino de 4 dígitos, 4 “dígitos-dólar”, quero dizer) e, claro que a presença de olhos familiares na platéia deixa tudo mais gostoso! Juntos, os que “me testam” e os que “me adoram”, formam um grupo bem delícia de me apresentar. São “dois desafios em um” porque agradar fãs, não necessariamente é uma coisa fácil. O fã tem a “sua Jade” e não tolera menos do que a “Jade que traz para o Show em sua memória e em seu coração” é aquele público que pode “não gostar dessa vez” pode “gostar do que você fazia antes”, é uma presença importante pra mim, pra que eu não corra o risco de “me perder”.

O que aconteceu no Egito esse ano foi um tanto pior do que nos anos anteriores, quando boa parte dos brasileiros que estavam no Cairo, estavam ocupados com passeios e não puderam me ver. Esse ano não havia UM ÚNICO BRASILEIRO na platéia no dia do meu Show. Além da divulgação oficial do Festival, fiz também, uma divulgação minha, em bom português, com o dia e horário do show e da minha aula. A “gringaiada” que não estava atenta às divulgações, foi me parando no Festival pra perguntar “quando você vai dançar?” e estavam todos lá. Algumas brasileiras me disseram outra coisa (isso, nos 5 anos que dou aula no Egito!) “Jade, queria tanto ver seu show/ir à sua aula, mas, infelizmente, não vai dar porque vou seilapraonde”. Nenhum olhar familiar, nenhum aplauso “em português”, nenhuma foto comigo e meu figurino de deixapralá quantos dólares…

No dia seguinte, foi minha aula… Duas brasileiras no grupo. Uma excelente bailarina em ascensão no Mercado brasileiro e, pra minha sorte, minha aluna aqui de São Paulo (a Bruna Nasif, a saber) e a bela Jéssica, que pegou segundo lugar no Concurso Profissional no Festival que vive e trabalha (muito bem, obrigada)  em Paris.

Da parte dos “Mestres” o que ouvi foi que “não há o que dizer ou ensinar ou somar ao meu trabalho”. O respeito que a Randa Kamel tem pelo meu trabalho é suficientemente provado pelo fato de ela me convidar para trabalhar com ela (não sei se alguém “reparou” mas eu não organizo grupos para ir para Festivais no Egito! Estou no meu segundo Festival e, em ambos, fui convidada pele qualidade do meu trabalho). A Mona Said que é, junto com a Fifi Abdo, minha “primeira professora” me “aprovou” em 2006 (há dez anos). Essa aprovação de meus mestres, mais “a fama internacional”, mais eu estar “aqui” há 25 anos, mais o fato de que, de cada 10 bailarinas incríveis no Brasil, 8, 9 passaram, ou ainda passam, pelo “meu espelho” me dão segurança (só faltava não ter nem isso, né?) de que meu trabalho é bom sim e muito bom.

Então, chego a conclusão que o “Problema” que tenho, na opinião do Mercado de Dança do Ventre do Brasil é o mesmo da Soraia e da Warda: nasci aqui. E o que quer que tenha sido “made in Brasil” não é, mesmo, grande coisa… Bailarinas estrangeiras que pedem pra tirar foto comigo, que fazem ou fizeram aula comigo fora do Brasil já foram convidadas para trabalhar aqui em condições que jamais foram ou serão oferecidas para mim (ou pras minhas contemporâneas, Soraia e Warda) entre estas “convidadas”, inclusive, meninas que tem menos tempo de vida do que nós três, de experiência profissional na Dança do Ventre.

A Soraia e a Warda saíram fora… Estão lá do outro lado do mundo, ralando, “concorrendo” com meninas que têm metade da sua idade e um “passaporte árabe”… Tenho muito orgulho delas! Somente elas sabem, na real, o “preço” (altíssimo!) de passar uma vida inteira longe de casa, “encarando o Mundo Árabe”, são guerreiras, são vencedoras, são meninas que mancharam muitos travesseiros de delineador negro em noites solitárias, com o corpo quebrado, sem uma mãezinha por perto. São mulheres que aplaudo de pé!

Eu insisti no Brasil. Eu fiquei. Eu recusei todos os convites. Eu “acreditei na gente” e, sinceramente, somente agora, pela primeira vez, tantos anos depois, todas as “coisas realizáveis” realizadas, tendo vivido coisas que jamais ousei sonhar (como dar aula no Egito, por exemplo) sinto uma ponta de arrependimento por isso… Não me sinto “recompensada” à altura da minha entrega por essa Dança que tanto amamos.

E esse é um texto “urgente”, uma questão que toca a todas nós, envolvidas com Dança do Ventre, dançando, aprendendo, ensinando, contratando bailarinas e, ao mesmo tempo, muito pessoal e, sim, admito, muito, muito magoado… Meu orgulho desaprova a publicação desse texto, mas a verdade que aperta meu coração, mais uma vez, é maior que meu orgulho, é maior que o risco de “magoar possíveis contratantes” e, por mais uma razão, não ser a “bailarina convidada”… Estou na minha casa e esse é o preço mínimo que exijo como “recompensa”: O que quer que aperte meu coração, ainda que ninguém ouse dizer, eu estarei aqui para dizê-lo em bom português, caso contrário, nada terá valido a pena…

DANÇA DO VENTRE e SOLIDARIEDADE

Acho que todo mundo do meio da Dança do Ventre que circula pelas redes sociais deve ter percebido que muitas bailarinas, atualmente, têm se envolvido com ações solidárias o que é uma coisa muito bonita, que me enche de orgulho, ver essa nossa “paixão” botar roupa no corpo, comida no prato de quem precisa! Parabéns pra nós!
Mas… como quase tudo tem um “mas…”, tem um “outro lado”, esse virou, também um recurso de Marketing muito mais que eficiente: a moça oferece Workshops de estrelas para seu público sem gastar um único real, faz uma “moral” com suas alunas e sai muito bem na foto, de “bailarina solidária”! Esse é o “outro lado” que, somado ao primeiro (a ajuda real!) tudo bem, é um “efeito colateral”.
A questão é que, por alguns “eventos isolados” estou percebendo que tem um oportunismo envolvido nisso. Há casos em que o modo que a menina se aproxima pra te “convidar” te dá um certo “Opa!” imediato. Aconteceu comigo e com colegas minhas também e ao ouvir “não” a reação é sempre um “biquinho”, sabe? Aquele “ok” que você enxerga o beicinho na mensagem?
Nunca falei sobre isso “aqui”, mas a situação, realmente, pede: Fiz algumas ações grandes e com muito êxito, uma para mulheres vítimas de violência doméstica, esta incluía, roupas, itens de higiene, calçados, maquiagem, um show e um bate-papo comigo. Foi lindo! O que consegui (conseguimos, claro, passei o chapéu entre minhas alunas e amigas!) deu para, além de distribuir entre as mulheres, fazer um bazar, já que ganharam coisas belíssimas que valeria a pena fazer um din din para coisas mais urgentes. Depois, foram duas ações para Refugiados sírios (à época, dava aulas de português para mulheres árabes, trabalho voluntário, claro, duas vezes por semana e estava envolvida com elas quase que diariamente, dando uma mãozinha em suas comunicações aqui no Brasil). Uma das ações era para as “moradias” e, até mesmo, cama, geladeira, fogão eu consegui, foi lindo demais, outra, agasalhos e outra, para crianças, que incluía brinquedos, fraldas e material escolar, além de roupinha. Ganhei até carrinho e berço de bebê!
Fiz outras duas ou três (chá beneficente com show e palestra minha, no meu estúdio ou, simplesmente, “meninas, precisamos alimentar um pessoal aí!”) e, neste momento, estou iniciando uma para angariar agasalhos.
E dei aqui um “breve histórico do meu lado solidário” pra que os “decodificadores de sílabas” (aqueles que “lêem o que querem ler”) entendam que, não, eu não sou uma pessoa que “só pensa em dinheiro bla bla bla” e, sim, faço “parte da minha parte” (porque sei que poderia fazer muito mais!).
Em todas estas ações, recebi muito amor e ajuda, dos dois lados e, claro, recebi roupas (inclusive de bebês!) que não serviriam nem para limpar móveis, trajes ridículos de festa a fantasia cheirando a mofo, alimentos e itens de higiene vencidos, “conselhos e dicas” sobre como deveria proceder, “lições de moral” do tipo “quem ajuda tem que ensinar a pescar e não doar o peixe”, além, claro, daquelas mensagem dos “desconfiados de plantão” que queriam entregar seus itens, pessoalmente, nas instituições que ajudei. Somente pra contar algumas situações – chatérrimas, desestimulantes – que envolvem estas ações.
As pessoas que me mandaram as “sacolas de lixo” de suas casas dormiram bem naquela noite porque “fizeram sua parte”, sabia? Fazer sua parte é uma coisa que depende do julgamento moral de cada um que é, absolutamente, pessoal.
Em nenhuma dessas ações eu trabalhei no “modo chantagem” para conseguir alguma coisa e, muito menos, escrevi “posts mal criados” pra quem não me ajudou, por uma razão muito simples: não é da minha conta e meu foco é outro, é em quem AJUDA e em quem PRECISA da ajuda. Quem quer e pode contribui com o que quer e pode e pronto!
Outra coisa importante de explicar é esse projeto incrível que a Mahira Hasan fez, o “Dança Ração” do qual eu, obviamente, participei, já que a esta altura, uma meia dúzia de leitores desavisados estão tentando “encaixar meu texto em algum lugar” e podem encaixar no “Dança Ração” que está bombando.
A Mahira milita DIARIAMENTE pelos bichos. Ela, pessoalmente, resgata, acolhe e, consequentemente, paga altas contas por eles e, portanto, estender a mão à Mahira nesta ação é colaborar “suavemente” com o que ela já faz todos os dias, sob nossos olhos.
Outra coisa importante sobre o Dança Ração: A Ação foi programada com um ano de antecedência e, quando ela entrou em contato, já tinha todos os horários programadinhos pra gente escolher e a divulgação que ela fez em cima disso trouxe benefícios para todos os envolvidos! Do gatinho mais faminto até eu, todos fomos tratados com muito carinho, respeito e, claro, profissionalismo.
Mais algumas coisas sobre a Mahira: Excelente aluna, bailarina, professora e produtora, se ela fizer um único show por ano (com cachê, pois ela sempre paga!), tem uma probabilidade de 90% de ela me contratar. Como ela é muito ocupada, faz menos aulas do que gostaria mas, se fizer uma única aula, também, existe a chance de ser comigo. E uma outra coisa incrível sobre ela é que ela sabe tanto dizer quanto ouvir NÃO com muita classe, direta, sem frescuras por uma razão muito simples: O que ela faz ela, realmente, faz por amor, por compaixão, movida por sentimentos nobres e todo mundo (ou quase todo mundo) diz SIM a Mahira e aos seus bichos, exatamente, pelas razões que descrevi acima.
Então, galera… Quem quer fazer, faz, quem quer ajudar, ajuda e é todo dia, não é pra “trazer gente pro seu estúdio”, pelo menos, não somente pra isso.
Eu não canso de me “absurdar” com o tipo de coisa que são capazes de fazer as pessoas que querem o tal do “lugar ao Sol”… É um “vale tudo”, sem classe, moral, peso ou medida.

A Primavera dos Cornos

Todas as vezes na minha vida (sem uma única exceção que “comprovasse a regra”!) que eu vi um homem (ou mais!) berrando “Putaaaaaaaaaaaaaaaa!”,  “Vaaaaaaacaaaaaaaaaaaaaa!”, Va-Ga-Buuuuuuuuuuun-daaaaaaaaaaa” etc, era corno. Todas! Ou corno-corno (corneado, de fato) ou “pré corno” (que olha uma mulher deliciosa que o despreza, da qual ele não “daria conta”) ou, ainda, o “co-corno” (que é o amiguinho do corno original, o que sente a traição feita ao outro, o que tem inveja da cornidão do outro, o que filma a mulher do outro entrando no Motel com um outro Outro). Coisa de Corno!

Daí, eu, de repente, entendi a porratoda! Por exemplo: Não tem um milhão de pessoas com embasamento/conhecimento político e histórico, de ficha limpa (que nunca passou uma nota fiscal falsa, somou recibos de serviços “não prestados” por seus camaradas prestadores de serviço pra Declarar o IR, que nunca utilizou de Carteira de Estudante Falsa pra pagar meia, que nunca molhou a mão de um guarda ou de um garçom pra furar a fila no bar, etc etc etc), com moral pra ir às ruas de verde e amarelo, acompanhando o pato de borracha, lutar por uma “Sociedade Democrática de Direito” que fosse perfeita como um dia foi (até porque, no caso, não, nunca foi!), agora, um milhão de cornos em São Paulo tem sim! Ah, se tem!

Eu tenho amigos de tudo quanto é jeito! Tenho amigo corno, tenho amigos com “traços preconceituosos” (racismo, xenofobia, machismo, islamofobia, “nordestinofobia”, etc) e tenho, ainda, amigos que “pegaram cana” ou conseguiram escapar no último minuto “Graças ao fato do Brasil ser um país corrupto” (têm dinheiro, contatos, molharam as mãos certas e escaparam). Dentre as acusações (estou falando, apenas, das verdadeiras!) tem Agressão, Formação de Quadrilha, Desvio de Dinheiro para o Exterior, Venda de moedas falsas e, claro, Estelionato.

Todos estes meus amigos, os preconceituosos, criminosos e, claro, cornos, estavam lá (todos, de novo, sem UMA ÚNICA EXCEÇÃO!) estiveram lá, lutando ao lado do Pato de Borracha…

Estou falando, apenas, dos que eu conheço, ok? Por favor, os cornos e estelionatários que não conheço, não precisam vestir a carapuça!

Eu acho o uso da palavra “Corno” como ofensa, bem inadequado! A cornidão é uma coisa do homem… Tem muitas coisas de homem, a cornidão é parte da formação do caráter da maioria deles, os torna, às vezes, criaturas amáveis, risíveis ou, ainda, violentas, mas não é uma falha de caráter, é, somente, uma condição. O cara é corno, ué… Não é culpa de ninguém, exceto daquela puuuuuuuuuuuutaaaaaaaaaaaaa que o corneou.

A Imparcialidade é, somente, uma máscara que serve para dissimular duas coisas: preguiça ou covardia. A preguiça, confesso, a esta, nem sempre resisto e, às vezes, maquio minha preguiça de imparcialidade e digo bordões bons de encerrar conversa como “é… entendo seu lado, bla bla bla” mas, covarde, não, nunca fui e nunca serei!

Com relação aos atuais “acontecimentos políticos no Brasil” falei muito pouco publicamente, por pura preguiça e por ver pouquíssimas conversas que não fossem no tom “Corinthians X Palmeiras”. Falei pouco, entre os meus que, de alguma forma, disseram alguma coisa que valesse uma boa discussão, de ambos os lados…

Não tive tempo de “escolher um lado”! Meu lado “escolheu-se espontaneamente” e não foi porque “meus amigos são Coxinhas/Petralhas” ou, ainda, “meus inimigos são Coxinhas/Petralhas”, foi um outro critério, muito mais intuitivo, a partir da minha experiência pessoal, com pessoas de quem eu gosto (e continuo gostando, com chifres ou armas de fogo dentro de casa!).

Tem três características em mim que me fizeram “acumular segredos obscuros”: 1) Eu bebo bem! Cai todo mundo e eu continuo de pé!, 2) Sou uma pessoa difícil de chocar e/ou julgar as pessoas por seu comportamento e 3) Sei guardar segredos. Então, comigo em particular, todo mundo sai do armário e foi muito fácil “despencar à extrema Esquerda”, conhecendo o lado podre (falso, maquiavélico, interesseiro, mentiroso, que todos temos em doses distintas, de pessoa pra pessoa) de quem eu gosto… Fui vendo as fotos dos caras (e “minas”) ao lado do Poderoso Pato e, hora arregalando os olhos, ora dando gargalhadas, percebi que tudo foi ficando meio óbvio…

Passado esse primeiro momento, comecei a ver meus “Piores inimigos”: Os saudosos da Ditadura Militar (desses, tenho medo!), os nazistas (desses, tenho pena, já que ser nazista e brasileiro, na opinião de um “nazista de verdade” é uma piada pronta), os violentos, os “Preconceituosos assumidos e com orgulho”, estes, também, todos lá, ao lado do Pato, daí, não restou nenhuma dúvida!

Entendi, ainda, uma outra coisa: Os Seguidores do Pato (porque não quero generalizar, entende? “Cornos de Verde e amarelo” pega mal, “Coxinha” acho batido… Acho “Seguidores do Pato” fofo!) também absorveram dois grupos bizarros de pessoas: As que não são convidadas para NADA, as que mandam mensagem pra 150 pessoas na véspera do Carnaval e 90 ignoram, 30 dão desculpas e os outros 30 dizem que “não tem espaço no carro”. Esses caras, finalmente, conseguiram fazer parte de “Alguma coisa”! Tem também o “paga-pau-de-patrão”, aquele que conseguiu um tapinha nas costas do Patrão quando chamou a Presidente do Brasil de “Vacaaaaaaaaaaaaaaa!” no meio da fábrica, pela primeira vez! Agora, os “Patetes” (ficou bom! “patetes”!) perderam a baladinha… Estão putos da cara, de panelas na mão (ou “aquilo” foi uma comemoração? Não pareceu, não! Os caras celebraram sua vitória berrando palavrões???).

É um país de Cornos… Tudo tem a ver com isso, começa nisso, acaba nisso… Abandono, medo, solidão, traição… “Alguém está no meu lugar!”  (e entre os cornos, têm os “Co-cornos do Aécio”! Chega a ser bonitinho!) porque esse ódio, esse grito de “Va-Ga-Buuuuuuuuuuun-Daaaaaaaaaaa!” só pode ter nascido de um amor que acabou e, como esses Patetes jamais “amaram a Dilma” (de um amor de verdade, que “justifique” – entre aspas! – esse ódio), esse brado passional é um “Desabafo” é um berro, direcionado às mulheres que saíram de sua vida e, quem sabe (Freud explica!) à sua adorável mamãezinha porque, um dia, ela lhe negou o peito.

Imparcialidade ou covardia?

“Neutro é o que já se decidiu pelo mais forte” (Max Weber)

Se um homem espanca uma mulher ou uma mulher a um cão ou um cão a um gato, “não se meter” significa participar da prática, ser “comparsa” (ou “comadre”?) do homem, da mulher e do cão, na ordem acima, claro…

Há, sempre houve e sempre haverá, sim, o bem e o mal, o certo e o errado e estas coisas não são paralelas, o bem e o certo estão acima, muito acima do mal e do errado. A gente sempre sabe, ainda que ninguém mais no mundo saiba, ainda que a gente finja com muita sinceridade que não sabe, a gente sempre sabe, lá no íntimo, na chama do bem que há em nós que, sim, acabamos de fazer uma merda e/ou cometer uma injustiça…

Passei quase 40 anos da minha vida me envaidecendo (será que foi aí que me dei mal?) do fato de não ter “indisponibilidades”, pessoas que não tolero ou que me fazem mudar de calçada, passei esses anos sendo “quase imparcial” em muitas encrencas, achando que estava sendo justa, que estava cooperando para um “bem estar social”, me julgando capaz de “amenizar as coisas com o meu infinito amor pelas pessoas bla bla bla” na minha família, entre meus amigos e, no meu trabalho (até porque, na minha vida, estas pessoas se cruzam, se misturam)…

Eis que nos últimos anos, as coisas foram se complicando, complicando e, hoje, a lista de meus desafetos beira umas dez pessoas, uma coisa que achei que jamais aconteceria na minha vida, coisa que acreditei estar em minhas mãos e, com a qual, saberia, sempre lidar. É aí, sempre aí, no excesso de orgulho e na falta de atenção, que caímos em armadilhas vulgares…

Quando você caminha ao lado de pessoas às quais você assiste, pessoalmente, travar guerras inúteis contra outras pessoas deve, simplesmente, se afastar delas e ser, sim, parcial! Olhar as coisas, enxergar o bem e o mal, o certo e o errado, saber a distinção entre eles e escolher o lado certo. Sempre há um. Se uma história tem duas versões é porque uma é verdadeira e a outra falsa… Daí, você junta a verosimilhança, lógica e (por que não?) a sua intuição e “aparta-te”!

O ódio gratuito é idêntico ao preconceito… É burro, ilógico e, nessa falta de lógica, um dia pode voltar-se contra você! As pessoas dão sinais o tempo todo… Mas, muitas vezes, o amor da gente (com uma boa dose de prepotência, do tipo “comigo não!”) maquiam as coisas a nosso favor, como os defeitos que o apaixonado não percebe em seu objeto de desejo.

A maldade das pessoas não atinge a ninguém mais do que a própria pessoa má. A maldade, a maldade legítima, profunda, é um tormento, uma doença, um abcesso, que a pessoa que a possui, às vezes, nem percebe. As pessoas más são dignas de pena, prece e esquecimento. Se possível, com muito tempo e nobreza, quem sabe, do nosso perdão. São pobres diabos atormentados, você foi “a pessoa que passou e cruzou a maldade dela”, não chega nem a ser pessoal… Sinto mais pena do que raiva dos maus…

E vou citar mais um cara: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King).

Não chego aos pés do Martin… o cara é “King”, não alcanço toda essa nobreza e bondade, não enxergo, quase nunca, a “bondade dos que se silenciam”… Estes, sim, eu detesto! Os roedores de corda, os “leva-e-traz”, os vira-casaca. Daí, eu preciso da Clarice (porque ela já disse do melhor jeito, melhor não tentar de outro): “se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão” (Clarice Lispector).

Na minha idade (pois é… já tenho idade pra começar parágrafos com “na minha idade”…) já vi muitas coisas sendo plantadas e, posteriormente, colhidas e enxergo (com o coração tranquilo) que há, sim, uma justiça, independente de mim e de minhas ações… É uma expressão repetida, quase vulgar, mas a tal da “Lei do Retorno” é cumprida à risco, Graças a Deus! É só esperar pra ver!

Eu adoraria dizer o contrário, mas o compromisso que tenho com a verdade é maior do que meu desejo de contar uma mentirinha… Não, eu não desejo o bem para toda a Humanidade, não… Tem uma turminha aí que eu aguardo, sim (sem orgulho nenhum, apenas admito, confesso) que eu vou ver cair, se estabacar no chão e não terei pena alguma. Vida longa e morte lenta a todos os roedores de corda do Mundo! Que venha a conta e que venha bem alta e eu adoraria dizer o que todo mundo diz “Não desejo mal a ninguém” mas, não é uma questão do “meu desejo” (ah, se fosse! ah, se meus desejos, simplesmente se realizassem ao escrevê-los!). Não, não é um desejo, é uma certeza que a experiência me trouxe: “Aqui se planta, aqui se colhe!”. Eu estava lá vendo o “plantio”, muitas vezes, sendo a vitima dele e espero viver bastante para assistir de camarote a colheita e, nessa colheita, a decadência de todas os bunda-moles que se dizem “imparciais” e cooperam para que os maus continuem espalhando sua maldade!

 

Saudade de nada

Quando eu, finalmente, fui concebida, a quinta, de um casal que aguardava, ansiosamente, uma menina, foi uma coisa que “já não era sem tempo!”. Já andava pegando mal para os meus pais que essa tal menina que eles tanto prometeram, não vinha. Quatro meninos nasceram antes de mim. Três deles estão por aí, vivos e muito vivos e um deles, achando tudo aqui meio sem graça (não tiro a razão do pequeno Luíz!) foi-se (ou voltou?) assim que apareceu por aqui.

Com a nossa reputação de família parideira competente, era fundamental que essa menina chegasse, então, rezaram, rezamos, eu de lá, eles de cá e Deus, em sua infinita misericórdia, apressou as coisas para que eu viesse, para alívio e júbilo dos meus pais, A Cegonha deu uma passada de olhos e falou “Fui!”. Mas, sabe como são as coisas feitas às pressas…

Vim ao mundo faltando alguns pedaços. Não tenho quase nenhuma das “mulherices” recorrentes, por exemplo. Não acho a maternidade o centro da vida de toda mulher, acho ótimo o fato do meu marido ter alguém com quem ir no boteco de vez em quando, pra falar das suas coisas que, definitivamente, não me interessam, o mesmo vale para pornografia… Acho interessante saber o que o Milton Neves falou sobre o jogo do Vasco com o América e fora das mulherices/esposices, se um amigo meu chega vestido de mulher (como já aconteceu!) elogio a bolsa e só… Sou meio “amoral”. Não vejo graça na maioria das coisas “importantes pros outros” (casamentos, formaturas, saídas do armário) e vejo graça em outras, que ninguém vê. Me sobra tolerância pra coisas “Intoleráveis” e suporto outras que são “indigestas” e me irrito com coisas que são “tão naturais”. Tudo meio na contra-mão…

Não acredito que essas coisas sejam boas ou más para mim ou para os outros. Não dou muita falta das peças que não tenho, mas tem uma peça que me falta que gera um certo espanto e polêmica, quando revelada: Não tenho saudade de porra nenhuma…

Penso em coisas e pessoas que passaram pela minha vida e nas coisas boas que elas trouxeram… Fico com uma cara de besta, sorrindo e penso no que fizemos juntas, no que elas me ensinaram, nas coisas que aprontamos juntas… Às vezes (muitas vezes!) penso nos meus mortos – que dá uma lista boa! – e no que vivemos e sinto orgulho, culpa, um ou outro arrependimento mas, acima de tudo, sinto-me privilegiada por ter passado por sua vida e, como crente que sou, sonho em um dia revê-los…

Agora, saudade, mesmo, saudosismo, aquela coisa de olhar pra trás e achar fodaparacai eu não acho… Sobre as pessoas (as vivas) que se foram, elas se foram. Ponto. As pessoas se vão… Você não serve, nem elas. Não serve como uma peça de roupa, mesmo, não no sentido de servir, de serviço… É linda mas… não serve! Não combina ou não cabe mais, ou ainda, não funciona com as que você usa hoje. Ou ainda, é você que não cabe mais no armário do outro. Ele redecorou o coração e você ficou meio fora. Enfim, não serve. O que serve, simplesmente, continua. Eu só preciso carregar aquilo que, realmente, preciso. Todo o resto, prefiro o novo, o que ainda não vi, o que me vai fazer mudar de idéia.

Detesto “Amigo Secreto”. Quanto mais “todo mundo da antiga vai tá lá”, menos eu gosto. Acho um saco isso… “Quando a gente tinha vinte anos bla bla bla”. Eu, particularmente, quando tinha vinte anos achava que sabia a porratoda e não sabia, sequer, que tinha vinte anos… Minha bunda e minha cabeça eram mais duras, sim e disso tenho, quase saudade… Não da bunda, mas da cabeça, daquela capacidade de me desapontar e surpreender com as coisas… Taí, uma coisa, pra se sentir saudade: “Não acredito!”. Ouvir coisas inacreditáveis e se surpreender com elas… E essa é, sim, uma coisa que o tempo leva. As coisas vão ficando bem repetitivas e previsíveis…

A saudade “sincera”, a saudade das mães que enterraram filhos, a saudade da perna amputada, a saudade trágica tem uma beleza, uma poesia, o “tempero” da melancolia, que torna as coisas necessárias de serem sentidas… Essa saudade eu sou capaz de aspirar, só essa e, ainda assim, com medo de certos portais…

A Saudade é usada, também, como um portal para um lugar, do qual, você pode declarar o seu fracasso e, por consequência, pedir ajuda. Um lugar de onde você pode ver o que sua vida poderia ter sido, a partir da projeção de um futuro que não aconteceu, graças a um conjunto enorme de merdas que você mesmo, porque assim decidiu, fez.

A saudade é um lugar onde aquele sujeito decadente do boteco do Cidão, alí da esquina, pode dizer que comeu a Luiza Brunet, em 1983. Com seu cotovelo esquerdo bem acomodado no balcão, cigarro nos dedos amarelados da mão direita, camisa velha entre-aberta, jeans ajustados e chinelo de dedo, conta em detalhes com “partiu Luiza no meio, 3 vezes seguidas no Carnaval de 1983”. Foi verdade? Então… teria que perguntar pra Luiza… Mas, a Luiza é uma mulher ocupada, chiquérrima, de agenda cheia…

Se a gente perguntasse pra Luiza, caso a história do Cidão fosse verídica, provavelmente, ela diria que foi uma rapidinha sem graça com o garçom… um mocinho meio besta, virjão… um sujeito que tava lá, bonitinho, já na quarta-feira de cinzas… Uma coisa que a Luiza nem comenta… Mas, a kombi lotada de fãs do Cidão, que não estava lá em 1983, continua lá, firme, a seu lado, afinal, o Cidão foi “o cara” em 1983 e tudo que existe, que realmente importa, em cada boteco de esquina dessa porra de cidade, um dia, tomou uma com o Cidão! O Cidão sempre estará por aí. É um mundo cheio de Cidões.

Acho que minha relação com a Saudade tem um toque de preconceito, como calças legging listradas e lágrimas fora de hora… Dependendo do tipo de gente que faz uso demasiado de uma coisa, a coisa, pra mim, simplesmente, não serve.

Acima disso (e aí vem um coisa muito assoberbada de se dizer!) me sinto 100% quites com os “que foram” vivos ou mortos! Os que, querendo ou não, tiveram o meu amor, o tiveram com uma verdade palpável, em ação, os que quiseram uma casquinha, tiraram sua casquinha, os que queriam uma grana, ganharam lá sua grana. Fingindo gostar de mim, fingi de volta, também, sempre quando pude, por pura misericórdia e quem tinha lenha pra queimar do meu lado está aí, sempre esteve e estará, ensinando e aprendendo, dando e tomando tranco, chorando e rindo junto… Demora um ano, mês, dia, mas esses voltam e eu volto pra eles, também.

Quanto ao Cidão? Paga uma pinga pra ele e deixa o Cidão falar… É só o que pode fazer, o coitado do Cidão…

 

“Meu Deus! É ela!!!” – De cara com meu ídolo

Dei de cara com meu ídolo! E agora? O que fazer? Aquela figura que vejo há anos, na TV, no Youtube, nas redes sociais, na mídia, na boca dos outros está aqui, bem diante dos meus olhos!

Passei por esse momento, “de cara com meu ídolo”, algumas vezes na vida… Com a Dina (a “Rainha da Dança do Ventre no Egito”, há 30 anos, no Trono), por exemplo, foi assim: Havia me preparado para esse grande encontro e ensaiado tudo, bonitinho, em árabe… No meu ensaio imaginário, eu ultrapassava um mar de “Cortesãs”, me aproximava dela e dizia, em árabe decoradinho “Muito obrigada, seja bem-vida ao Brasil, eu te amo, você é linda, eu sou bailarina por sua causa!”. Mas, na realidade, ela se sentou ao meu lado, vinda sei lá de onde, e me pediu um isqueiro… Sem pompa, sem corte, sem frescura e eu fiquei olhando pra cara dela, com uma cara pasmada, respondendo a tudo, monossilabicamente… Teve o Edu Lobo (comprei roupa pra encontrá-lo! À época, iria trabalhar, como assistente, na restauração de uma de suas maiores obras, “O Grande Circo Místico”, no qual tive a sorte de participar… ). No ensaio, ele chegava e eu o recebia, sorridente, à porta, e dizia “Maestro, muito obrigada, é uma honra enorme trabalhar com o Senhor!”, mas, quando cheguei no Estúdio ele já estava lá e eu, ao notá-lo, tive um ataque de riso e foi bem ridículo… Saí correndo, me recompus e voltei, com cara de bunda, de novo… Depois teve o Djavan… Um amigo comum nos apresentou (depois de seu Show, num jantar) e – nesse caso, não havia ensaiado nada, foi uma surpresa – quando meu amigo disse “Djavan, essa é a Jade!” Ele abriu um sorriso enorme e veio em minha direção cantarolando “Jade” do João Bosco (tem que ser muito estrela – de verdade! – pra ter uma generosidade destas, né?) e eu, somente, sorri. Muda como uma flor. Passei por outras situações assim (no Egito, com grandes Estrelas da Dança do Ventre e, no Brasil, diante de Feras da MPB) e percebi que, quanto maior a Estrela, mais gentil e generosa ela é e é nelas que me inspiro, quando sou eu a “tal da Estrela”. (“Enxergo longe porque me apóio nos ombros de Gigantes!” Não me lembro quem disse isso, quisera tivesse sido eu, porque esta máxima é um dos “faróis” que sigo em minha carreira!).

Circulando pelo “Olimpo” (tive muita sorte na vida, nesse sentido, e cruzei pessoas que jamais sonhei conhecer pessoalmente) sempre achei muito admirável e elegante a postura desses “Monstros” e percebi, ainda, que uma das maiores torturas para a alma humana é ser a ela delegada uma “Média autoridade”. A Média autoridade é uma coisa que gera na pessoa uma histeria e ela precisa provar o tempo todo, para quem está “abaixo”, que ela, sim, está acima e para quem está “acima” que ela, sim, está a caminho. É um sofrimento enorme!

No Microcosmo onde transito (a Dança do Ventre) há 25 anos, num Mercado que existe há 30 (no máximo!) sou, sim, uma espécie de “Djavan” (mal comparando, claro, ao Macrocosmo que é a MPB no Brasil) e todo mundo me conhece (ama, odeia, despreza, sei lá, mas, que conhece, conhece!) e, inspirada no comportamento dos meus ídolos (“me apoiando no ombro de gigantes”) nunca me dei o direito de desfilar com cara de “Ai, que dura, a minha vida de estrela!”, aquela cara de mulher de marido rico, desfilando no Shopping, puta da cara com o tédio de sua vida maravilhosa, sabe? Acho isso um horror, um nojo… Mas… (sempre tem um tal de um “mas”!) Essa postura mais aberta dá um certo trabalho…

Na semana passada, li sei lá onde “Bondade é como blush, se você usar demais, vão achar que você é palhaça!” e expandiria o “Bondade”: Pode ser “simplicidade”, “simpatia” ou, até, a simples e vulgar “boa educação”, porque a Nobreza é um Idioma e, às vezes, você agir com Nobreza com uma pessoa que não fala “nobrez” dá bem errado e eu tenho o trabalho de explicar ao interlocutor (fã, figura que pede pra tirar uma foto ou começa uma conversa qualquer) que eu não sou uma “coisa que pertence a todos” por ser “famosa”. Algumas pessoas que consideram a mim e a elas mesmo como sendo “VIP”, imediatamente, consideram-se “íntimas” e outras, que não se acham nada VIP, tendo um acesso, uma proximidade comigo (ou com qualquer artista), às vezes, não sabem bem o que dizer ou fazer num contato “olhos nos olhos” e toda a sorte de esquisitices começa a acontecer…

Certa vez, quando eu usava meus cabelos naturais (que são crespos, bem crespos, armados) estava do lado de fora do Teatro, depois do Show (cumprimentando pessoas, agradecendo elogios, fazendo fotos, essas coisas) uma mulher de cabelos longos e lisos (belíssimos cabelos, diga-se de passagem) aproximou-se e disse (assim, sem prefácio) “Jade, quer meu cabelo emprestado pra você dançar?.. Todas as bailarinas dizem que têm inveja do meu cabelo!”… Sim… aconteceu… Outra boa… A mulher se aproximou, elogiou, elogiou e, ao final, disse “Eu faço aula de Dança do Ventre, mas não quero ser bailarina, não, porque dá muito trabalho, tem que pôr silicone, malhar, etc, e eu gosto de mim do jeito que eu sou!”. Nessas situações eu dou um jeito de sair correndo, às vezes, literalmente, mesmo, simplesmente, saio, porque não há o que dizer, mesmo…

Tem, também, o modelo “Omeumarido…”, tem “Agarra o meu marido!”, tem “Meu marido ficou de p… duro te vendo dançar!” (juro por Deus! Essa é bem comum!), tem “Meu marido não quer que eu faça aula com você porque é muito sensual” ou “Meu marido quer que eu faça aula com você!”, e um sem fim de coisas que começam com “Meu marido”… Na hora da foto, “Pode agarrar que eu deixo! É meu marido!”. Nessas situações, normalmente, eu e o “meumarido” ficamos sem jeito e eu sinto muita pena dele porque eu vou sair andando, mas ele não… Afinal, é o marido dela, uma coisa dela, um bem que a ela pertence.

Tem o pessoal que “trabalha com Seguros de Saúde” (só pode ser!) que quer saber meu nome de registro, quantos anos tenho, onde moro, se tenho filhos, tem também o pessoal do Raio X, que quer saber o que é ou não “natural” no meu corpo, tem ainda algumas “mães de plantão”  que dizem “Ah, mas você não tem filhos, né?” (nesse caso, a cara é ótima, é uma coisa “ahá! é por isso!”) e o pessoal do “Ah, bom!”, do tipo “É silicone, né?… Ah, bom!” ou “Você não tem filhos, né?.. Ah, bom!”.

Tenho unhas enormes, naturais e tem as que perguntam “Mas, essa unha não é sua, né?” e quando eu digo que sim, agarram minha mão para uma investigação mais “apurada”. Tem outra bem intrigante, que é a mulherada que quer dar uma “apalpadinha”… Algumas pedem “Posso pegar no seu peito?”, outras, simplesmente, pegam… No meu peito, no meu cabelo… Outro dia, levei uma “encoxada” (juro!) e, como acontece, quando fico muito nervosa, tive um ataque de riso… Ela chegou e disse “Me dá vontade de te encoxar!” e, simplesmente, me deu um “junta”, diante de uma fila de pessoas que aguardavam para fazer uma foto. Pensei se o pessoal da fila não iria querer mudar a ordem da fila e vir “por trás” mas, graças a Deus, uns riram, outros fingiram não ver e houve uns que, de pura vergonha alheia, se retiraram…

E tem, também, um outro grupo que é aquele que chega no Djavan (vou usar o Djavan porque, essa analogia com meu próprio nome seria “anti-ético” da minha parte) e diz: “Eu amo o seu trabalho, eu acompanho o seu trabalho desde 1982, fui a vários shows seus, fiz um Workshop seu em Seilaond, seilaquando…” e, daí em diante, envereda para vários caminhos…. alguns são: “se não sou eu, sei lá o que seria da sua carreira!”, “não acredito que você não lembra de mim!”, “todo mundo acha meu trabalho igualzinho o seu” ou (acho que esse é o pior!) “Você e o Frank Aguiar são os melhores cantores do Brasil, na minha opinião!” (Sorry, Frank… sorry fãs do Frank, mas compará-lo com o Djavan é meio demais…) e tem alguns (esse, acho até bonitinho, apesar de não ser a melhor coisa de se ouvir) que são fãs “saudosistas” que amam o trabalho que o Djavan fez em 1973 e dizem coisas do tipo “Eu ainda gosto de você, mas em 73…”.

Tem os “místicos” que vêem coisas enquanto eu danço, como Entidades, Espíritos (às vezes “do bem”, às vezes “do mal”), reencarnações de pessoas famosas ou antigos Deuses do Egito, evangélicos com informações de última hora, como “Jesus te ama”, análises e previsões para o meu futuro, pessoas que pedem para ler minha mão, astrólogos que, quando digo “É Touro!”, fazem uma cara de “Ah… claro que é Touro!” e saem falando tudo o que isso significa, tem os “Fiscais da Saúde” que querem saber (e aconselhar sobre!) o que eu como, tem Vegetarianos desapontados “Não acredito que você come cadáveres!”, anti-tabagistas “Ai, Jade… Que decepção! Você fuma?!” e sapecam “A” informação que faltava para eu largar o cigarro: “Isso faz mal!”.

Em tempos em que todo mundo tem uma câmera na mão, o trabalho de nós, artistas, aumentou (demais!) e tem, sempre, uma longa série de fotos (antes, depois e às vezes, durante minha apresentação). Temos um probleminha linguístico… “Selfie” é uma coisa, significa “fotografar-se a si mesmo”, mas virou um apelido para “close, feito por mim mesma, com a câmera virada pra mim, mais sei lá quens ao lado, fazendo alguma palhaçada”, então, a pessoa te pára, pede pra alguém fazer a foto e, depois, “Agora, vamos fazer um selfie!” e, muitas vezes, te pede pra fazer biquinho, careta ou sei lá o quê. Isso tudo, às vezes, suada, cansada, com fome, depois de um vôo longo, antecedido de uma noite mal dormida, a ida, às vezes, antes do nascer do Sol, para o Aeroporto, dar tudo certo com o tal do vôo, chegar ao destino e tudo pode acontecer nessa chegada… tem gente que quer te mostrar a cidade, levar pra conhecer a sua Academia, apresentar para a mãe, mostrar a casa onde cresceu, etc., quando tudo o que preciso é ir para o Hotel, descansar minimamente e me preparar para o Show. Às vezes, esse momento das fotos acontece quando faz 20 horas que eu não durmo ou não como ou ambos.

Encaro a “sessão de fotos” como parte do meu trabalho. Como maquiar, arrumar o cabelo, me alongar é, simplesmente, uma coisa que “tenho que fazer”. Dia desses, num show, após dançar, morrendo de fome, pedi que me servissem alguma coisa na cozinha, ao invés do local onde estavam os convidados, para que eu pudesse comer com algum sossego e privacidade. Comeria rapidinho e já sairia para as fotos e uma moça que descobriu meu “paradeiro”, entrou na cozinha e disse “Jade, eu tenho que ir embora! Precisamos fazer a foto agora!” e eu respondi “Cinco minutos, amor… Já vou lá pra fora!”. Ela ficou ali, parada, me olhando comer, com uma cara de “Vai logo que eu tenho mais o que fazer!” e, cansada de me esperar, disse “Ah, sinto muito, mas vai mastigando, mesmo!” e me abraçou, sentada, com a boca cheia, com seu celular na mão, câmera virada para nós… Eu tive que fazer alguma coisa, disse “Peraí… eu já vou sair e a gente faz a foto!” e ela ficou muito brava, foi embora com sua câmera, me olhando muito feio… Essa mesma moça já havia perguntado minha idade num outro momento… Tem também a que finge estar tirando foto de si mesma, me focando ao fundo, às vezes, com o figurino pela metade ou me alongando ou, ainda, sem roupa… (sim… acontece…).

Tem, ainda, o pessoal que acredita que eu seja a “Porta da Esperança” e me pede toda a sorte de coisas… Emprego, emprego no Egito, marido árabe, aula ou show ou ambos (de graça), roupas (há quem escolha a roupa que quer que eu dê!), traduções de músicas, feedback de vídeos, contatos em outros Países, passar em meu estúdio pra “bater um papo”, conselhos sobre assuntos diversos, sem nenhuma conexão com meu trabalho (o “top” dessa lista foi uma aluna que, numa uma aula particular, decidiu dividir comigo o fato de ter atração sexual pelo próprio filho! Juro que isso aconteceu… ), aconselhamentos médicos (o que fazer com dores na lombar, menopausa, cirurgias) e “uma mãozinha” em Concursos onde farei parte do Juri. Permutas “Você dança no meu Evento de graça e eu danço no seu” (esse vem de pessoas que, nem me pagando, eu escalaria em uma Produção minha) e tem jeitos bem bizarros de pedir essas coisas, às vezes, num tom “Que bom que te encontrei aqui! Só você poderá me ajudar!” ou ainda “Estou te dando a honra de trabalhar pra mim de graça, pois isso será a mãozinha que faltava para sua carreira” e, esse é ótimo, o “Você TEM que me ajudar! SÓ VOCÊ poderá me ajudar!”. É doido, doido demais!

Nesses tropeços com fãs, também vivi momentos de profunda delicadeza e beleza, recebi presentes, às vezes, de pessoas que escolheram coisas em seus próprios guarda-roupas, fotos antigas comigo, cartas, flores, lágrimas de amor sincero, elogios que dá vontade de contar pra todo mundo, chiliques emocionados de fãs, pessoas que choram, que se arrepiam, que me olham com um amor que me sinto obrigada a ser “melhor que eu mesma” para merecê-lo e, em nome desses momentos deliciosos, “encaro as doidas” porque, amarrar a cara me livraria de malucas, sem noção ou sem educação, mas também me privaria  da delícia de conhecer pessoas muito lindas e dar a elas um “sonhado abraço’ meu.. Já recebi declarações de amor, homenagens e agradecimentos, em muitos formatos, alguns de uma singeleza comovente como comidinhas, cartinhas, desenhos feitos por crianças, pessoas que batizaram bichos com meu nome e, muitas vezes, estas coisas complementam o meu cachê, às vezes, vêm depois de trabalhos onde não havia uma cadeira ou um copo d’água no camarim, às vezes, não havia, sequer, um camarim, hotéis horríveis, comida ruim e volto pra casa, ainda cansada, com o corpo dolorido e venho, no avião, revendo estes momentos e pensando que minha carreira vale a pena…

Quase sempre, a educação, a discrição e o bom gosto andam juntas, o contrário também, então, pessoas que não têm nada a dizer, são as que mais falam, mas em todo monte de areia, há grãos de ouro, em todo o monte de gente, há pessoas, em todo o monte de nada, há seres recheados de amor e é nestes seres que eu foco, esperançosa, cada vez que uma voz que não conheço diz “Jade”, com aquele sorrisinho sem jeito, de quem me conhece, sem me conhecer. Pelo sim, pelo não, atendo, sempre, sorrio sempre, faço as fotos, os “selfies”, autografo as coisas, porque esse amor que algumas pessoas sentem por mim, ainda que seja, somente, pela minha personagem, vale o risco de ouvir algumas bobagens e estas bobagens viram “histórias pra contar no Bar”, enquanto declarações de amor gratuito ficam tatuadas para sempre, na camada mais profunda e macia da minha alma!

Reflexões, descobertas e coisas que não são nada

Reflexões profundas nos levam a descobertas interessantes… Compartilhar estas descobertas é um modo de dividir o que sabemos com o mundo, é generoso, é um ato de bondade com o outro. Às vezes, um “toque” vem na hora e medida certa sem, sequer, percebermos de onde. Cada descoberta humana pode ou, até, deve ser compartilhada. Assim, nós, seres humanos, temos chance de aprender com os erros e acertos dos outros. Afinal, não teremos, mesmo, tempo de cometê-los, todos, pessoalmente.

A profundidade de uma reflexão e a importância de uma descoberta depende do referencial que cada um tem, a partir de seu conhecimento e sua experiência. Exemplo: Tampopo (minha gatinha) descobriu dia desses, que a janela da sala é “a mesma, tanto de fora, quanto de dentro de casa” e ficou histérica, querendo contar pra nós o que percebeu. Como Tampopo não tem perfil nas redes sociais, não gravou um vídeo emocionado, dizendo “Gatos… todo mundo me conhece e sabe que eu não sou de falar muita coisa, mas eu preciso dividir com vocês uma coisa que considero muito importante! As janelas têm dois lados: Um de fora e um de dentro e, mesmo assim, permanecem sendo as mesmas janelas!” (nesse ponto, Tampopo choraria de emoção!). Como ela é minha gatinha, eu achei fofo, achei lindo e celebrei com ela! Uma percepção dessas, vinda de um gato merece algum reconhecimento.

As coisas que não são nada são aquelas que interessam àqueles que amam a gente! Àqueles que amam com um amor de verdade, capaz de acolher-nos em nossos devaneios. Estas são as pessoas com as quais você comenta (sem filtro, sem pudor) qualquer bobagem que passa pela sua cabeça. Assim, somos acolhidos nas nossas bobagens, fantasias, coisas sem significado e que, em dois ou três dias, deixarão de existir. Riremos depois! Acolheremos depois! Ouviremos as bobagens do outro também. Isso se chama Intimidade e é uma coisa que é espontânea ou, simplesmente, não é.

Agora, a distinção entre estas duas coisas, tanto para quem diz, quanto para quem ouve (ou escreve/lê), é que faz toda a diferença!

“Não confunda Obra de Arte do Mestre Picasso com pica de aço do Mestre de obra” é uma maravilha da Língua Portuguesa! É uma coisa bem escrita, que junta duas idéias absolutamente distintas e ainda tem um ótimo senso de humor. Soa parecido “Obra de Arte do Mestre Picasso” e “pica de aço do Mestre de obra”, algumas palavras se repetem, mas as duas coisas têm sentido absolutamente distinto. Pode parecer incrível, mas tem muita gente que não consegue distinguir uma coisa da outra, ou confunde uma com a outra ou, ainda pior, inverte uma pela outra… Já disse isso antes, mas não custa repetir: Escrever, qualquer um escreve, ler é que é difícil. Quando digo “ler”, não falo de “decodificar combinações de letras” c+a+s+a=casa e sim compreender o que significa uma “casa” e, para tanto, a pessoa tem que ter visto uma! “Quem não sabe o que é uma casa?”. Qualquer criatura do mundo que jamais tenha visto uma ou que não domine a língua portuguesa, o que já é bastante gente!

Algumas palavras que se enfiam em qualquer contexto: Surreal, Bizarro, Hipocrisia, Humildade. Quando alguém me diz “Hoje um sujeito bizarro fez um negócio surreal!” eu fico esperando ouvir que um ornitorrinco com implantes sob a pele dirigia um trator na Avenida 23 de Maio. (Bizarro e Surreal junto daria meio nisso). Hipocrisia é a “atual resignificação das palavras falsidade ou mentira”, mas parece uma coisa maior ou mais importante. “Mentiroso!” é uma coisa muito Regina Duarte, “Hipócrita” é proparoxítona, uma palavra com “H”. É muito mais dramático!

Humildade é o “apelido fofinho para falsa modéstia”, que é uma coisa, absolutamente, detestável. Daí, ficou assim: “Eu acho surreal que no atual mercado de Artes tenha umas pessoas bizarras que não têm humildade para assumir que a hipocrisia…” essa é a “pica de aço do mestre de obras”. Soa alguma coisa que, definitivamente, não é. Pode até ser uma legenda interessante mas, definitivamente, não estamos falando de Arte.

Todos nós (como nunca dantes na história desse país!) pitacamos sobre Política. Eu mesma, sinceramente, adoro! Se eu trabalhasse na política, aí, eu teria que tomar muito mais cuidado com os meus pitacos, eu teria que, obrigatoriamente, ter uma “Obra Política” que justificasse minha falácia ou isto, sim, seria hipocrisia ou, ainda pior, o mais genuíno desejo de jogar merda no ventilador, talvez pra chamar a atenção, ser vista. Só que chamar a atenção não seleciona “de quem” ou “para quê” e quanto mais opiniões temos, maior é o compromisso com a nossa obra!

Dia desses, alguém publicou um vídeo de um casal dançando um “Arrocha” (sei lá o que era, exatamente, era um arrocho lá…) e eu achei feio, vulgar de mau gosto e comentei mais ou menos isso… Algumas pessoas, logo abaixo do meu comentário (daquele jeito que joga uma indireta-direta pra que todos saibam que está falando de você) escreveram coisas do tipo “são bailarinos maravilhosos, premiados sei lá quantas vezes, sei lá onde”. Pois é… pra mim que sou ignorante na diferença de um para outro “arrocho” fico, somente, como público, na posição de gostar ou não. Não gostei! Só que não pode “não gostar de gente famosa prasuasnega”.

E eu contei essa história pra contradizer o que acabei de dizer: “O compromisso com a sua obra”. Ou seja, até mesmo pessoas que têm “prêmios acumulados”, para fazerem ou dizerem o que bem entendem, num local público de altíssima frequência, como é o caso das redes sociais,  devem estar preparadas para críticas e saber que, fora do seu “Microcosmo onde ele é foda” pode, simplesmente, estar dizendo ou fazendo uma coisa que não é nada pra muita gente, com pompa de grande descoberta a ser compartilhada com todos.

Gente vendendo saquinhos de vento (sempre, claro, com explicações muito bem elaboradas, cheias de “surrealismo e bizarrice”, sobre o tempo, dinheiro e experiência que empreendeu para descobrir como ensacar vento) é bem irritante, mas a fila pra comprar, sempre me irrita mais, depois, o pessoal que não quer comprar o saquinho (afinal, é vento!) se ocupar de criticar (e, às vezes ofender, agredir) os compradores do saquinho me dão muita (muita, muita) vontade de ficar em casa, sem Wi-Fi, sem 3G, admirando as descobertas incríveis da Tampopo!

 

 

 

CAIRO 2015 – As cabrinhas no telhado

O Egito fala árabe e árabe se escreve de lá pra cá… Tem alguns pensamentos, questões gramaticais e até aspectos culturais que são meio de lá pra cá, mas acredito que eles achem que nós é que estamos muito daqui pra lá. Sei que vejo as coisas meio do contrário e, também, que tem coisas de cabeça pra baixo no Egito. Exemplo: Criação de cabras no telhado.

Claro que não é, bem, um telhado, ou as cabras, facilmente, quebrariam as telhas e despencariam, lá de cima e, também,  não tenho certeza se eram, de fato, cabras. Eram lajes, com cultivo de animais caprícios do Egito.

Eu tenho dificuldade em distinguir algumas coisas: Jair e Luiz, timbres de metais e animais da categoria dos caprícios (a palavra “caprícios” não existia até agora). Confundo todos! “Oi, Luiz!” “Jair!” “Ah!”… “É um sax, né?” “Não, trompete!” “Ah!” e cabra, cervo, cordeiro, bode, carneiro, o pessoal todo do meeeeeeeeeeeeeeee, ou me-e-e-e-e-e-e-e-e-e, ou beeeeeeeeeeee, esses caras… os que berram eu não sei quem é quem.

Eu vivia num apartamento no décimo andar, num prédio chique no Mohandeseen, no Cairo  e, da janela do meu quarto, explorei, anônima, a movimentação nas lajes de toda a vizinhança.

Aos caprícios que vivem nas lajes dos meus vizinhos vou chamar de cabras. Estas eram, à direita, cabras cor de cabra, mesmo, tons de caramelo e nude (porque a cor bege, simplesmente, não existe mais!) cabras nude- caramelo- âmbar. Sobre a casa do vizinho da esquerda, cabras mais macias, com xales em tons de vaca malhada, branco com preto ou ainda, preto com branco.

A laje da casa à minha direita tinha dois setores. Um, das cabras e outro, dos humanos. O período que morei neste apartamento, incluiu os últimos dez dias do Ramadan de 2015 e via, da janela, uma família imensa que se organizava para quebrarem o jejum juntos, numa mesa enorme a céu aberto, cercada de crianças e coberta de comida! Era bem gostoso de ver! A moça com quem eu morava não jejuava e eu, várias vezes, quebrava o jejum sozinha (sim, eu jejuo!), quero dizer, quase sozinha.

Preparava minha comida, colocava em uma bandeja e comia na janela, junto à família das cabras nude-âmbar. Às vezes eu até participava do assunto, conforme eu ia tecendo um roteiro, como uma pessoa que atribui legendas a um filme mudo “De quantos meses você está?” “Seis” “Que maravilha! Benza Deus”… “E o Mohammed? Ligou?” “Ligoumasdeixapraláquemeupaitavindo”… “Do que vocês estavam falando, meninas?” “Nada, papai!” “hihihihi…” “hihihihihi…”.

Passada a refeição, desmontavam tudo e voltavam para o interior da casa, deixando-me a sós com as cabras. Observando o movimento delas, percebi que elas decidem coisas juntas… Todas se movimentam para um determinado ponto, fazem uma roda e confabulam sobre sei-lá-o-que! Comem juntas também e tem uns filhotinhos meio folgados que entram na bacia de comida. Comiam, as cabras e o filhote, dentro da bacia, mesmo.

As cabrinhas da laje à esquerda tinham um “cafofo” e, acredito, uma tratadora mulher, já que esta eu jamais vi tratando das cabras e elas (as cabras) entravam com muita freqüência no tal do cafofo… No princípio, imaginei que fosse para dar telefonemas mas, depois, acabei concluindo que, já que as cabras não comiam do lado de fora (por isso, inventei, também, que era uma tratadora mulher, que não queria se expor na laje, tratando de cabras, o que é possível no Egito), prefeririam comer a dar telefonemas.

Na laje da direita, todos os dias, subia um tratador. Um homem que havia, sempre, acabado de se levantar. O cabelo amassado, rente às costas, amassadas, uma camiseta desbeiçada enfiada às pressas, cós adentro de uma calça de louco. Calças de louco: São aquelas calças sem nenhuma sofisticação, nem zíper ou botões, sempre com um elástico ou cordão e o cara veste (aí é que está!) de um jeito que a costura da bunda não sincroniza com o rego. (Eu não sei como eles conseguem fazer isso!) e o cara parece que foi vestido por uma outra pessoa.

Ele se movimentava com uma vagareza que eu considerava irritante no princípio, depois, fui pegando amor nele. Lento, amassado, com aquela calça, o rego fora do lugar… Sei lá… Uma figura meio inocente, tratando as cabras com tanta delicadeza.

Ele punha a ração. Sentava-se numa velha cadeira rente ao muro. Observava. Depois ia levantando-se. Não, não é que ele se levantava, assim. Ele esticava uma perna, depois a outra, depois dobrava, botava o braço no muro, olhava para os lados, para o chão, para o próprio braço no muro, dizia “Vai, braço!” e o braço apoiava a mão “Vai, mão!” e, flasssssssss (esse é o barulho de um homem grande e lerdo se levantando de uma cadeira meio torta!) coçava alguma coisa e recomeçava.

O mesmo ritual era feito com a água: Serve, senta, observa, levanta… Enquanto cuidava das cabras, acariciava uma e outra, pegava os bebês no colo, dava uma ou outra chicoteada quando saía uma briga, às vezes, tirava leite. Depois descia, preparava um lanche e voltava para seu sofá. Até que alguém gritava seu nome e ele se levantasse, lentamente, para, quarenta minutos depois, estar na laje, com suas cabras.

Cabras brigam muito! Às vezes, não passa de uma discussão, uma outra interfere, chega uma cabrinha-criança, uma dessas coisas tolas que interrompem brigas tolas e, às vezes, chegam aos finalmentes e rolam umas chifradas. Daí, se separam, fofocam, fazem grupinhos, depois, vão voltando a interagir.

Tinha um deles, um bode preto, destoando das cabras-caramelo (bode? Tem bode no Egito? Deve haver um outro nome! Isso me dá um certo ciúmes! O bode não é só nosso?). Havia dias em que ele acordava de ovo virado e passava o dia todo berrando com todo mundo, dando cabeçadas e fazendo climão! Um dia, da minha janela, o vi causando na laje, comecei a ficar irritada com ele, balbuciei “bode feio, besta…” e ele virou-se, olhou na minha direção e deu um berro! Eu, instintivamente, me agachei, rente à parede e, lembrando que estava a uns oito andares acima dele, os imaginei rindo horrores da minha cara! “Pegamos mais um trouxa!”. Levantei-me rapidamente, mas todos disfarçaram e voltaram às suas atividades de cabra.

Teve uma outra que, certo dia, cansada de sua natureza quadrúpede, simplesmente, levantou-se. Do nada. E ficou ali em pé, por um tempo, pensando “Por que não?”. As demais não tiveram reação alguma. Talvez seja este, um hábito, uma excentricidade dela que as cabras concordaram em não alardear. Elegantes, as cabras!

Notei, ainda, que os animais maiores tinham as patas da frente atadas uma à outra… Cabras saltam! imagino que seja este o motivo, pelo qual têm as patas dianteiras atadas, não? Estando as cabras em cima da laje, pensa na merda que daria um “salto capricio” em plena Avenida (estas casas davam de frente à uma Avenida movimentadíssima do Cairo). A cabra cairia sobre alguém que, certamente, morreria, causando um constrangimento enorme a todos, inclusive ao morto, que teria que se explicar “Sabe o que é… eu tava andando na rua e… é que caiu uma cabra na minha cabeça…” e os anjos teriam que conter suas risadinhas angelicais.

As cabrinhas do telhado me fizeram uma companhia preciosa, especialmente, em momentos (que são muitos!) em que não desejo a companhia de nenhum humano ao meu alcance. E, além da amizade das cabrinhas, aquelas lajes cheias de vida, filhotes nascendo, cabras dando leite, homens calmos, mulheres invisíveis e famílias comendo juntas, davam-me a impressão de que as coisas estavam bem no Cairo. Da janela de onde, um dia, observei homens apressados e armados, via a vida berrando, o dia inteiro!