Visual – Tradição, mito e modismo

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O visual da bailarina árabe é e sempre foi moda. Nos anos 50, era aquela estética “pin-up” (cabelo curto, enrolado pra dentro, carinha de menina e beicinho). Assim faziam Samia Gamal e Marilyn Monroe. Nos 70, cabelão “fofo”, feito no bob, sobrancelha quase depilada e delineador carregado – assim eram Aza Sharef e Catherine Deneuve. Nos 80, era o horror! Cabelo pigmaleão, tudo bufante, tudo fofo, tudo sintético; assim eram a Fifi Abdo e o resto do planeta (engraçado como moda “feia” anda mais rápido e mais longe, não?). Nos 90, uma confusão! Um pouco de vontade de voltar para os 70, somada a um “chute” do que seriam os 2000… tudo era “meio New Wave”. Assim era a Dina e também o resto do mundo.
Ou seja, o “visual tradicional” é mais um mito. Nunca existiu! E a moda é o que sempre foi: vai quem quer! Nós artistas? Bom… no nosso caso, “vai quem quer ter sucesso”, porque “enfiar o seu desejo goela abaixo do seu público” é que não vai funcionar, mesmo! Eu vejo pela rua pessoas vestidas de “sei lá o quê” e acho legal! Que legal que a pessoa veste o que quer, mas só vai até aí… até o “Que legal!” e ponto.
A estética atual é quase Drag Queen! Eu percebi isso há alguns anos, vendo um Carnaval Gay na TV. Parecia um Festival de Dança do Ventre! De repente a ficha caiu! É a estética do “ou tem ou compra” (cabelo, bunda, peito, pele etc.). Assim somos eu, a Beyonce, a Dina, a Madonna. É uma escolha estética. É um direito ao uso do próprio corpo.
Eu gosto! Eu gosto muito! Eu acho que se uma mulher como eu não puder fazer o que bem entende com o corpo, sendo livre, artista, polêmica, feminista e feminina, que será das “mulheres comuns”? Hoje em dia, somos atendidos por médicas e advogadas que têm silicone, megahair, tatuagem, piercing… é moda! Ainda e de novo… é moda!
Quando a Dina veio ao Brasil, em 2005, ficou muito impressionada com a qualidade das alunas aqui e fez dois comentários: “se as brasileiras aprendessem árabe, não teria pra ninguém!” e “por que vocês usam roupas dos anos 90?”. Eu, muito atenta e sempre “louca pela Dina”, parei pra pensar sobre isso e, em mim, suas palavras causaram um “impacto” muito grande. Nestes nove anos eu “reinventei minha personagem” e aprendi árabe direito (hoje falo com fluência, graças a Deus!) e, a partir desta reinvenção, tive mais sucesso e, consequentemente, passei a ganhar melhor.
Então, eu não engordo, não uso roupas “noventistas” (franjas, mangas, coroas, coisas passando pelo corpo, coisas “fofas”, em geral), e gasto uma porcentagem bem alta do que ganho com meu cabelo, pele e alimentação, pois percebo que isso é bom para mim! Então, a estética boa para mim é essa que vocês estão vendo: peitão, pernão, cabelão, roupa colada no corpo e, claro, continuo estudando e aprendendo todos os dias, porque esta “reforma”, se tivesse sido feita “só do lado de fora”, teria tido o efeito contrário, eu teria “piorado”, teria “perdido a essência” e sabe-se lá mais o que teriam dito. Quando uma menina decide mudar, tem que mudar de dentro pra fora!
E tem também a questão da idade! Se uma menina de 20 anos engordar, dirão “Fulana está gorda!”; se eu engordar, dirão “A Jade está velha!”, e eu sou muito mimada por esse mercado! Minha autoestima não toleraria uma “rejeição” dessas e iria influenciar em meu trabalho.
Eu não só “concorro” com meninas 20 anos mais novas que eu, como também, com meninas que cobram metade do que eu peço (ou menos, ou nada; algumas até pagam, que eu sei!) e não sou a pessoa “mais diplomática do mundo”, muito pelo contrário. Esta minha “autenticidade” me custa bem caro! Então, a mim, que sou ruim de política, de jeitinho, de diplomacia, e exijo mais que a média, tanto de alunas quanto de contratantes, me resta estar sempre no meu melhor estado! O seu melhor estado é aquele que te faz sentir confortável com você mesma, com a roupa que você deseja vestir, executando a técnica que você escolheu. Então, há que se “buscar este estado” e mantê-lo! Tem gente “do lado de fora” que não entende bem isso, que me vê dizer “não” para algumas guloseimas, comentar “Hoje eu não como, porque à noite tenho Show!”, e brinco, digo, “Olha, segunda-feira, você estará de pé às 7h! Eu durmo até as duas! Você tem ‘bônus’, seguros, ticket. Eu não! Uma juíza não pode ter tatuagens nas mãos. Eu tenho. Ela pode pesar 120 kg. Eu não!”. É meu trabalho, meu trabalho exige e pronto. Tanto quanto exige que eu dê aulas de 6 horas, depois de voar por três, tendo acordado às 5 horas da manhã, tudo isso de bom humor, maquiada, com a aula na ponta da língua! Eu concorro (e muito) comigo mesma! O show de amanhã tem que ser muito melhor que o de ontem! Na técnica, na essência, na estética, em tudo que pode ou não ser avaliado, especialmente, por mim!
O que eu acho de bailarina gordinha, de cabeça raspada, de dread, roupas dos anos 90 etc? Eu acho que todos nós temos direito de escolher a “cara da nossa bailarina” e ir atrás disso, porque esse papo (furado – já falei muito disso ultimamente!) de Sentimento OU Técnica, como se fossem coisas opostas, como Beleza OU Técnica é só isso mesmo, papo furado! Porque “o cara que paga a conta” está “andando” (gerúndio que mantém o nível deste texto!) pros seus sentimentos ou aulas ou genética, ele quer TUDO e é esse tudo que eu quero oferecer! Tem gente que me ama, tem quem odeia também, mas a turma do “ama” é a que me importa. É para eles, somente para estes e para os que “vêm abertos” que eu trabalho, que eu danço, que eu escrevo.
E, principalmente, pra você que, mesmo com um ou outro engasgo, chegou até o final deste texto e, quem sabe, querendo, possa também se reconstruir (primeiro dentro!) e gozar no final!